Banquete do divino

Pra Iemanjá, o mais bonito: robalo grelhado com pérolas de leite de coco com capim santo e areia de coco, servido sobre um espelho

Em janeiro, quando fiz a matéria da iabassê pernambucana Carmen Virgínia pra Folha de S. Paulo (que você pode ler aqui e aqui), soube em off que a chef Bel Coelho estava preparando o novo menu de seu Clandestino com pratos baseados nas comidas dos orixás do candomblé. Na época isso era obviamente um segredo e fiquei na minha. Em abril, Bel começou a servir o tal menu nas noites de quinta-feira, no andar superior do Dui. Finalmente participei de um dos jantares na semana retrasada e posso definir a empreitada (são 13 pratos) com uma palavra: emocionante.

Oxóssi, meu preferido da noite: costela de javali na taioba ao molho de cacau 100% e jaca verde na manteiga de garrafa.

Exagero? Jamais. Ao trazer a comida de santo pra dentro de seu sofisticado restaurante, a chef traduziu cultura brasileira para a alta gastronomia. E correu riscos – a própria iabassê (cozinheira de terreiro) de Recife queixou-se pra mim do preconceito que sofre por se dedicar a esse tipo de culinária. Imagine num jantar reservadíssimo, que custa R$ 195 por pessoa (sem incluir vinhos), no coração dos Jardins?

Exu: cupim com padê (farinha de dendê), geleia de mel e cachaça e aroma de fumo; e Ogum: acarajé de feijão preto com paio, costela de porco, laranja fresca e couve crua. Alguém aí falou em feijoada?

Quer saber? Besta de quem ficar cheio de frescura e preconceito, pois o jantar é delicioso. Claro que Bel Coelho não leva à mesa a comida de terreiro pura e simples. Cada prato, dedicado a um orixá (às vezes a dois), trazem a inventividade e a execução esmerada, cada vez mais marcantes no trabalho da chef. Sem contar o capricho da apresentação: a receita em homenagem a Iemanjá (um robalo sobre pérolas de leite de coco com capim santo e areia de coco) é servida sobre um espelho quadrangular, criando um efeito de brilhos e luzes de deixar boquiaberto.

Nanã: bombom de sarapatel (!) com jabuticaba (!!) e broto de agrião

Ossaim: salada de ervas e brotos por cima de um granizado de hortelã

A própria Bel circula entre as mesas, explicando o por que dos ingredientes, a historinha por trás da receita, as graças e mitos por trás de cada prato. São garfadas de cultura afro-brasileira, um banquete do divino orquestrado por uma chef em um ótimo momento de sua trajetória na cozinha. Como eu disse, emocionante.

Dois pontos altos: Oxalá (vieira grelhada com mil folhas de pupunha, cogumelos paris e espuma de inhame) e Ibejis (camarão e quiabo grelhados com pasta de amendoim e castanha e pérola de dendê)

Xangô chega com fogo: rabada ao molho de cerveja preta e canjiquinha; Iansã e Obá se unem: caldo de vatapá com acarajé líquido, farofa de camarão e vinagrete

Ah, o jantar com os vinhos sofre acréscimo de R$ 140. Sim, é bastante, mas são cinco rótulos – o espumante brasileiro Vallontano Rosé Brut Pinot Noir (um divertido início para o respasto sagrado), seguido de quatro sul-africanos: Boekenhoutskloof Sémillon 2008 (branco redondo, com presença de carvalho); Lesca – De Wetshof 2009 Chardonay (fresco, verde, frutado); o sensacional Ataraxia Serenity 2007, de corte secreto (!), intenso, com toques de cassis; e o moscatel Danie de Wet Cape – De Wetshof, pra adocicar a boca dos convivas.

Oxaguiâ, canjica com amburana e coco, gelatina de erva doce, sorvete de abóbora e caramelo de cravo e canela

Ah, no meio da comilança, é servido um aperitivo feito de cachaça Cambraia, melaço, redução de balsâmico e muito gelo – uma saída simpática para uma harmonização xeque-mate, um prato com camarão e quiabo gralhados com pasta de amendoim e castanha de caju.

Pra fechar, Oxum (à esq.): ovos moles, sorvete de gema, banana ouro e caramelo de coco e gengibre; Oxumaré (doce de batata doce); Omulú e Obaluaiê (balas de coco e telha de milho piruá)

Eu investiria no menu completo, com vinho e tudo. Mas só a comida, mesmo com água, já vale a experiência e cada centavo da conta. E o resto, como diz dona Carmen, bote na conta dos orixás que eles dão um jeito.

O menu caprichado e emocionante custa R$ 195 por pessoa, mais R$ 140 para harmonizar com os vinhos

Clandestino no Dui – Al. Franca, 1590, Jardins, tel. (11) 2649-7952, www.duirestaurante.com.br

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