Spa pra colocar tudo no lugar

Rondelli de ricota com castanha do pará ao molho rosê, com cenoura glaciada e creme de pupunha. Sim, começamos bem!

Rondelli de ricota com castanha do pará ao molho rosê, com cenoura glaciada e creme de pupunha.

Olá, boa forma! Quanto tempo que eu não te via! Pois é, o moço aqui resolveu tomar jeito e correr atrás do prejuízo. Vim passar uma semana no Lapinha Spa, no Paraná, que tem mais de 40 anos e é considerado o melhor spa médico do Brasil. Na verdade, não vim à Lapinha “pra emagrecer” (somente). Aqui é um verdadeiro detox de tudo: a alimentação é totalmente orgânica, saudável e vegetariana; as atividades físicas são tão legais que dá vontade de fazer (além das massagens maravilhosas, imagine caminhadas por fazendas, igrejinha e linha de trem, no meio das montanhas); as instalações são lindas (a piscina infinita é meu lugar preferido, sem contar o lago, as trilhas, muita flor e muito passarinho); e o clima é tão de paz que você acaba se realinhando – corpo e mente.

Um dos meus lugares favoritos na Lapinha.

Um dos meus lugares favoritos na Lapinha.

“Xi, o blogueiro virou natureba?” Claro que não, hehe. Vou continuar comendo pizza, tomando vinho (sempre) e fazendo tortas de maçã bem calóricas. Mas uma semana na Lapinha dá aquele empurrãozinho necessário pra você reorganizar sua alimentação, cuidar mais de si. Em 2012, na primeira vez em que passei uma semana aqui, perdi 4 kg. Voltei para São Paulo animado e continuei com exercícios regulares, tentando compensar as delícias gastronômicas com uma dieta balanceada. Resultado: nos 4 meses seguintes perdi mais 8 kg e cheguei no meu peso ideal. Assim, sem sofrer e com a cuca boa.

Pão de batata yacon com queijo cottage, frutas e ricota. E nada de café, só chá de maçã com canela mesmo. 🍎

Pão de batata yacon com queijo cottage, frutas e ricota. E nada de café, só chá de maçã com canela.

Há dietas de 1.850 cal. até de 600 cal. Dessa vez, minha dieta aqui é de 850 calorias. Por dia. Dá fome? Dá. Mas não fome de quem não comeu, mas de quem tem vontade de comer mais, sabe? E isso nos primeiros três dias. Depois o corpo entende que você não precisa de mais e segura a onda. Ok, sinto falta de café (na Lapinha só há chás de frutas e ervas; nada estimulante, como cafeína). Às vezes sinto vontade de um croissant, mas posso passar sem isso uma semana ou duas, né? O corpo, entretanto, responde rapidamente à mudança de alimentação: três dias sem ingerir nenhuma toxina e você desincha, sente melhora na pele e até no cabelo (morra de inveja, véia Katsuki!).

Sala de repouso na clínica médica e centro de massagem. No centro, as piscininhas quentes e frias da terapia Kneipp.

Sala de repouso na clínica médica e centro de massagem. No centro, as piscininhas quentes e frias da terapia Kneipp.

Outro mito que não existe aqui: comida de spa é sem graça, sem gosto e sem variedade. Tudo que é servido para você, seja qual for sua dieta, é pensado por nutricionistas, médicos e uma equipe de cozinha, chefiada pela simpaticíssima Arlete Zbonik (mais de 20 anos de Lapinha). Um prosaico desjejum pode surpreender você, com pãezinhos de batata yacon, polvilho e queijo cottage, que parecem pão de queijo sem culpa, ao lado de frutas como melancia, atemoia e peras picadas.

Salada "inteligente": folhas verdes, tomate, laranja, chucrute e uma deliciosa granola salgada.

Salada “inteligente”: folhas verdes, tomate, laranja, chucrute e uma deliciosa granola salgada.

Essa semana, por exemplo, já passaram pelas mesas do refeitório rondelli de ricota com castanha do pará, molho rosé e creme de pupunha; quiche de legumes; cebolas empanadas (calma, é com farinha sem glúten e assada depois); e semifredo de mel e chocolate (sim, há doces na Lapinha!). E como disse a nutricionista Carolina Morais, até uma salada pode trazer inteligência culinária, como a que reunia folhas verdes, tomate, laranja, chucrute e uma deliciosa granola salgada.

Semifredo de mel e chocolate (sim, há doces na Lapinha!)

Semifredo de mel e chocolate (sim, há doces na Lapinha!)

“Tá, Junior, mas o que tem pra fazer aí, além de comer essas coisas, caminhar e ficar de pernas pro ar?” Bem, antes de tudo, algumas vezes você DEVE ficar de pernas pro ar, sim. Relaxar e desligar fazem parte da sua terapia. Também tem um menu enorme de massagens – e você tem de experimentar a TOI – Terapia Oriental Integral, em quem uma japonesa arretada (e super séria!) mistura técnicas orientais, como shiatsu, acupuntura e ventosas. Saí outro. Há também tratamentos estéticos, como peeling diamantado, esfoliação com sal grosso e banho de leite. Sem falar de palestras sobre nutrição, mastigação (sim, isso é muito importante), noites de cinema e até showzinho musical. Ok, esses eu nunca fui, mas tá valendo pra quem curte.

IMG_5806Ah, e se você se programar, pode visitar o spa numa das semanas temáticas, como a de cinema, a de caminhadas ou, a melhor de todas, de culinária (justamente a que eu peguei). Todas as tardes, há aulas com receitas funcionais, light, saudáveis e, acredite, gostosas (veja o post com algumas apresentadas pela Carolina Morais). E o melhor: você pode provar um pouquinho do que foi feito, o que é salvação da lavoura quando você está com aquele fome e a próxima refeição é uma frutinha dali há duas horas.

Captura de Tela 2016-02-23 às 21.29.33Enfim, eu podia ficar horas aqui falando, mas tenho de dormir, pois amanhã tem caminhada às 6h20. Fecho com algumas dicas preciosas, tipo um “pequeno guia de sobrevivência num spa”.

– Não pule nenhuma refeição e não deixe de comer nada que te servem: acredite, qualquer avelã faz uma diferença danada quando você está numa dieta restritiva.

– Faça o máximo de atividade física que puder, mas sem estresse. Relaxe, cultive a preguiça, abrace o dolce far niente, desfrute do silêncio.

– Curta a sua refeição. Seja uma salada, uma fruta ou um nhoque. Coma mastigando devagar, sem muita conversa, sentindo o prazer dos sabores, dando tempo pro seu corpo entender que você está saciado.

– Tome chá. Litros. Eles fazem bem ao organismo, mantêm você hidratado e disfarçam um pouco aquela fominha chata. E são uma delícia: laranja maçã e canela; quentão de hibisco; gengibre com erva doce; abacaxi…

– Deixe que mimem você. Os funcionários, muito gentis e solícitos, sempre com um sorriso na cara, são treinados para fazer de sua estadia a melhor possível. Peça o que precisar e deixe que cuidem de você. Mas não seja um chato!

– Finalmente, curta à beça esse período. Spa não é pra ser uma penitência; é pra ser uma delícia. Então, delicie-se!

Lapinha Spa – Estrada da Lapa, Rio Negro, km 16,- Zona Rural, Lapa, Paraná, tel. (41) 3622-1044, http://www.lapinha.com.br

 

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Ruanda e México nas xícaras da Nespresso

nespressosNa semana passada a Nespresso lançou dois cafés da linha Edição Limitada, ambos 100% Arábica, mas de culturas cafeeiras bem distintas e distantes. Um deles é o Umutima wa Lake Kivu (e as atendentes das lojas já sabem pronunciar esse nome complicado como se dissessem “cafezinho”). O blend vem de Ruanda, país da África Centro-Oriental que tem investido no renascimento da indústria cafeeira como uma das fontes para reerguer sua economia. Eu adorei o sabor desse Umutima, um café doce e bem frutado, com intensidade 6. E o melhor: pode ser preparado como espresso (40 ml) ou longo (110 ml), sem perder suas propriedades. Adoro versatilidade.
O outro blend vem do México: o Tanim de Chiapas é cultivado em solo vulcânico e tem um sabor que lembra pão tostado e frutas secas. O blend mexicano tem intensidade 7 e também é flex: pode ser degutado como espresso ou ristretto (25 ml). As cápsulas supercoloridas dos dois novos cafés custam R$ 2,50 (ou R$ 25 a caixinha com 10 unidades).

www.nespresso.com.br

Casa de grelhados no Eataly ganha novo menu

Polvo grelhado com batata doce e cebolinha, um das novidades do Brace

Polvo grelhado com batata doce e cebolinha, um das novidades do Brace

Faz quase nove meses que o Eataly abriu suas portas em São Paulo e, pelo visto, navega sem muitos sobressaltos pela crise econômica que chacoalha o país. Ok, não há mais as enormes filas que congestionaram as portas do local por três meses, e vários produtos tiveram uma boa elevação no preço. Algumas massas frescas, que custavam em torno de R$ 38/kg na abertura da loja (veja aqui) hoje são vendidas a R$ 69/kg – já as massas secas italianas continuam ao redor dos R$ 13, porém com variedade reduzida. Mas no geral o grande mercado de produtos italianos é um sucesso e seus restaurantes continuam cheios. Há duas semanas ganharam a companhia de uma risoteria, veja só.

Também tem massa no menu: ravioli de queijo taleggio e ricota, nozes e figos na brasa, com molho de ervas

Também tem massa no menu do Brace, como esse ótimo ravioli de queijo taleggio e ricota, nozes e figos na brasa, com molho de ervas.

O êxito se aplica também ao restaurante mais diferenciado do complexo, o Brace. No amplo e envidraçado salão, quase isolado no último andar do Eataly, a estrela é a grelha da cozinha, comandada pela talentosa chef Ligia Karazawa (Brace, aliás, é o italiano para brasa). A casa é a única que não fica aberta direto (a não ser aos sábados e domingos), e mesmo assim vive cheia.

Wagyu macio: herança cultural da chef na brasa do brace

Wagyu macio: herança cultural da chef na brasa do brace

A boa notícia é que a chef não se acomodou no sucesso e está introduzindo novos itens ao cardápio a partir de hoje. Como o polvo grelhado com batata doce e cebolinha que abre esse post. Outra novidade saída da brasa é o wagyu, corte de kobe beef servido com folhas frescas (sugiro também legumes na brasa).

bruschettaNas entradas, as novas sugestões são os crostini di mare, ou seja brusquetas de pão rústico coberto com ricota com ervas, salmão defumado e mel da florada nativa.

Quer pegar leve? Encare essa mussarela de búfala gordinha, com pesto fresco

A salada La Piemontese vem acompanhada de cubos de queijo de cabra empanado e amêndoas. Gostei mais da prosaica mussarela de búfala, bem gorda e macia, com pesto tradicional e mix de tomates (foto acima).

bonetUma das novas sobremesas é um aveludado bonet de cacau e amaretto, com mousse de caramelo e sorvete de frutas vermelhas. Mesmo não sendo fã de sobremesas à base de chocolate, essa me catou pelo estômago e comi tudo (que surpresa, não é mesmo?).

A chef Ligia Karasawa, num raro momento longe da grelha

A chef Ligia Karasawa, num raro momento longe da grelha

Como eu disse, o novo menu estreia hoje e será amplamente testado no carnaval. Mas a chef ainda vai manter alguns pratos do primeiro cardápio.

Brace – Eataly, Av. Juscelino Kubitscheck, 1489, 2º andar, Vila Nova Conceição, tel. (11)  3279-3323, www.bracebaregriglia.com.br

A comida maravilhosa do médico mineiro que virou chef

Papada de porco braseada e assada com mil-folhas de mandioca, molho de laranja e guarnecido por uma folha seca de acelga: a perfeição do chef Leo Paixão

Papada de porco braseada e assada com mil-folhas de mandioca, molho de laranja e guarnecido por uma folha seca de acelga: mais uma perfeição do chef Leo Paixão

O mineiro Leonardo Paixão tem jeitão de médico. Aqueles doutores jovens, bem simpáticos e cuidadosos, que tratam bem dos pacientes, têm a maior paciência com detalhes e são meticulosos nas técnicas de tratamento, sabe? Na verdade, a história quase foi essa: Leo cursou Medicina e chegou a concluir a faculdade. Porém, na hora de fazer residência e escolher sua especialização, resolveu ir atrás de sua verdadeira paixão (ai, não resisti ao trocadilho, pardon) e foi à França estudar gastronomia. Se na época quase todo mundo achou isso uma loucura, hoje qualquer um que come no seu restaurante, o Glouton, pensa exatamente o contrário: que bom que esse moço virou chef.

O chef Leornardo Paixão em sua cozinha do Glouton

O chef Leornardo Paixão em sua cozinha do Glouton

Aberto há três anos no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, o Glouton já amealhou uma série de prêmios e vive cheio. Pudera: desse que você entra na casa de ambiente cinza muito elegante (porque simples) já dá de cara com a cozinha iluminada de um quase dourado no fundo do salão, onde Leo e sua equipe preparam os pedidos com um cuidado quase cirúrgico. Música (jazz e blues) no volume adequado, luz morna (mas que permite ler o menu sem precisar de uma lanterna), grandes janelas que dão para as mesas de fora e algumas fechadas para sempre na parede lateral de tijolos aparentes, serviço cortês e eficiente – tudo no Glouton promete um jantar memorável.

Nabo em fatias finíssimas, com queijo da canastra e castanhas. Praticamente uma renda comestível

Fatias finas de nabo com queijo da canastra e castanhas. Quase  uma renda comestível

E o principal elemento dessa equação – a comida – cumpre seu papel com perfeição. As receitas são bem variadas (tem ave, porco, boi e até pescados), sempre com no mínimo um ingrediente mineiro, um pedacinho da história do chefe. E todas (todas mesmo) que eu comi primavam pela combinação incrível de sabores.

As bombinhas de fígado: petisco surpreendente

As bombinhas de fígado: petisco surpreendente

O menu elaborado por Paixão não é longo, mas às vezes fica até difícil escolher o que comer diante de itens tão bem elencados. Por exemplo, como decidir um petisco entre as delicadas bombinhas recheadas com um cremoso patê de fígado de galinha e picles de maxixe (R$ 29, quatro unidades) ou o crocante funcho baby com uma surpreendente terrine de cabeça de porco e caramelo de beterraba?

lagostimNas entradas, a tarefa da decisão torna-se um pouco mais árdua. O lagostim em papillote crocante, com chutney de manga ubá e pimenta biquinho (R$ 33) é uma diversão para a boca, com as texturas e sabores brincando de pega-pega.

polvoUma opção mais clássica é o tentáculo de polvo (pré-cozido e depois grelhado, que o deixa ao mesmo tempo macio por dentro e firme por fora), com purê de batata doce e picles de cebola roxa (R$ 37).

arraiaJá entre os pratos principais, a coisa fica muito mais séria. Comecei provando a arraia grelhada, com pele crocante, coberta com uma bernaise de manteiga de garrafa (colocada na hora sobre o pescado com um sifão), acompanhada de uma refrescante salada de feijão fradinho, tudo sobre uma folha de taioba (R$ 61). Pensei que já tinha encontrado meu prato preferido, mas Leo me manda uma das receitas mais pedidas da casa, que abalou minhas certezas: papada de porco braseada e assada (sabe aquele história da carne se desfazer no garfo? então…), com mil-folhas de mandioca, tudo sobre um gostoso molho de laranja e guarnecido por uma folha seca e crocante de acelga (R$ 63). Quase uma peça arquitetônica para você comer e ser feliz (veja a foto que abre esse post).

rabadaJá sabe o que vai pedir? Então vou piorar o jogo pra você: quando eu jurava que não haveria mais nada pra me satisfazer ali, o chef Paixão arrematou com um prato que, quando li no cardápio, achei “legal”, mas quando provei senti quase uma epifania: um cubo com a rabada mais macia que já provei na vida, cercada com um molho de tucupi aveludado, com folhas de dente-de-leão. Tava tão bom que nem liguei muito pro entrecôte grelhado lindíssimo, que chegou na mesa ao lado, com molho Dijon e umas batatinhas assadas bem aromáticas. (mentira, reparei e deu água na boca, acredita? #obesiane).

pao pao pao paoSei que já dei esse conselho umas mil vezes aqui, mas agora é importante: guarde. espaço. pra. sobremesa. Por quê? Porque no Glouton comi uma das melhores sobremesas da vida: Pão, pão, pão, pão (pode lembrar de Beethoven que a referência é essa mesma, me disse o chef). O que parece uma explosão caótica de carboidratos é na verdade uma harmoniosa combinação de doces feitos a partir de pão. A ver: uma rabanada de brioche bem fofinha descansa sobre um laguinho de creme de pão de mel. Por cima, uma bola de sorvete artesanal de pão com manteiga (juro que é bom) e, completando a obra, uma fina fatia de pão torrado e caramelizado (R$ 23). Só não chorei porque fiquei com vergonha, mas deu vontade.

cerradoMuito carboidrato pro seu corpinho? Peça o Cerrado Mineiro: coulis de coquinho azedo, sorbet de cagaita e pé de buriti (R$ 23). Uma sobremesa refrescante, criativa e com muito sotaque mineiro.

VINHOFinalmente, preste atenção à carta de vinhos, com supreendentes (e bons) exemplos de rótulos produzidos no sul de Minas, como o espumante Luiz Porto brut e o syrah Primeira Estrada, safra de 2014 (numa degustação cega, esse vinho bateria facilmente em muito argentino ou chileno bem avaliado). Em resumo: se você for de Belo Horizonte ou viajar pra lá, eu sugiro fortemente que vá ao Glouton e entregue-se ao Paixão (ai, eu sei…)

E ainda bem que esse homem largou a Medicina, gente!

Glouton R. Bárbara Heliodora, 59, Lourdes, tel. (31) 3292-4237, www.glouton.com.br