A comida maravilhosa do médico mineiro que virou chef

Papada de porco braseada e assada com mil-folhas de mandioca, molho de laranja e guarnecido por uma folha seca de acelga: a perfeição do chef Leo Paixão

Papada de porco braseada e assada com mil-folhas de mandioca, molho de laranja e guarnecido por uma folha seca de acelga: mais uma perfeição do chef Leo Paixão

O mineiro Leonardo Paixão tem jeitão de médico. Aqueles doutores jovens, bem simpáticos e cuidadosos, que tratam bem dos pacientes, têm a maior paciência com detalhes e são meticulosos nas técnicas de tratamento, sabe? Na verdade, a história quase foi essa: Leo cursou Medicina e chegou a concluir a faculdade. Porém, na hora de fazer residência e escolher sua especialização, resolveu ir atrás de sua verdadeira paixão (ai, não resisti ao trocadilho, pardon) e foi à França estudar gastronomia. Se na época quase todo mundo achou isso uma loucura, hoje qualquer um que come no seu restaurante, o Glouton, pensa exatamente o contrário: que bom que esse moço virou chef.

O chef Leornardo Paixão em sua cozinha do Glouton

O chef Leornardo Paixão em sua cozinha do Glouton

Aberto há três anos no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, o Glouton já amealhou uma série de prêmios e vive cheio. Pudera: desse que você entra na casa de ambiente cinza muito elegante (porque simples) já dá de cara com a cozinha iluminada de um quase dourado no fundo do salão, onde Leo e sua equipe preparam os pedidos com um cuidado quase cirúrgico. Música (jazz e blues) no volume adequado, luz morna (mas que permite ler o menu sem precisar de uma lanterna), grandes janelas que dão para as mesas de fora e algumas fechadas para sempre na parede lateral de tijolos aparentes, serviço cortês e eficiente – tudo no Glouton promete um jantar memorável.

Nabo em fatias finíssimas, com queijo da canastra e castanhas. Praticamente uma renda comestível

Fatias finas de nabo com queijo da canastra e castanhas. Quase  uma renda comestível

E o principal elemento dessa equação – a comida – cumpre seu papel com perfeição. As receitas são bem variadas (tem ave, porco, boi e até pescados), sempre com no mínimo um ingrediente mineiro, um pedacinho da história do chefe. E todas (todas mesmo) que eu comi primavam pela combinação incrível de sabores.

As bombinhas de fígado: petisco surpreendente

As bombinhas de fígado: petisco surpreendente

O menu elaborado por Paixão não é longo, mas às vezes fica até difícil escolher o que comer diante de itens tão bem elencados. Por exemplo, como decidir um petisco entre as delicadas bombinhas recheadas com um cremoso patê de fígado de galinha e picles de maxixe (R$ 29, quatro unidades) ou o crocante funcho baby com uma surpreendente terrine de cabeça de porco e caramelo de beterraba?

lagostimNas entradas, a tarefa da decisão torna-se um pouco mais árdua. O lagostim em papillote crocante, com chutney de manga ubá e pimenta biquinho (R$ 33) é uma diversão para a boca, com as texturas e sabores brincando de pega-pega.

polvoUma opção mais clássica é o tentáculo de polvo (pré-cozido e depois grelhado, que o deixa ao mesmo tempo macio por dentro e firme por fora), com purê de batata doce e picles de cebola roxa (R$ 37).

arraiaJá entre os pratos principais, a coisa fica muito mais séria. Comecei provando a arraia grelhada, com pele crocante, coberta com uma bernaise de manteiga de garrafa (colocada na hora sobre o pescado com um sifão), acompanhada de uma refrescante salada de feijão fradinho, tudo sobre uma folha de taioba (R$ 61). Pensei que já tinha encontrado meu prato preferido, mas Leo me manda uma das receitas mais pedidas da casa, que abalou minhas certezas: papada de porco braseada e assada (sabe aquele história da carne se desfazer no garfo? então…), com mil-folhas de mandioca, tudo sobre um gostoso molho de laranja e guarnecido por uma folha seca e crocante de acelga (R$ 63). Quase uma peça arquitetônica para você comer e ser feliz (veja a foto que abre esse post).

rabadaJá sabe o que vai pedir? Então vou piorar o jogo pra você: quando eu jurava que não haveria mais nada pra me satisfazer ali, o chef Paixão arrematou com um prato que, quando li no cardápio, achei “legal”, mas quando provei senti quase uma epifania: um cubo com a rabada mais macia que já provei na vida, cercada com um molho de tucupi aveludado, com folhas de dente-de-leão. Tava tão bom que nem liguei muito pro entrecôte grelhado lindíssimo, que chegou na mesa ao lado, com molho Dijon e umas batatinhas assadas bem aromáticas. (mentira, reparei e deu água na boca, acredita? #obesiane).

pao pao pao paoSei que já dei esse conselho umas mil vezes aqui, mas agora é importante: guarde. espaço. pra. sobremesa. Por quê? Porque no Glouton comi uma das melhores sobremesas da vida: Pão, pão, pão, pão (pode lembrar de Beethoven que a referência é essa mesma, me disse o chef). O que parece uma explosão caótica de carboidratos é na verdade uma harmoniosa combinação de doces feitos a partir de pão. A ver: uma rabanada de brioche bem fofinha descansa sobre um laguinho de creme de pão de mel. Por cima, uma bola de sorvete artesanal de pão com manteiga (juro que é bom) e, completando a obra, uma fina fatia de pão torrado e caramelizado (R$ 23). Só não chorei porque fiquei com vergonha, mas deu vontade.

cerradoMuito carboidrato pro seu corpinho? Peça o Cerrado Mineiro: coulis de coquinho azedo, sorbet de cagaita e pé de buriti (R$ 23). Uma sobremesa refrescante, criativa e com muito sotaque mineiro.

VINHOFinalmente, preste atenção à carta de vinhos, com supreendentes (e bons) exemplos de rótulos produzidos no sul de Minas, como o espumante Luiz Porto brut e o syrah Primeira Estrada, safra de 2014 (numa degustação cega, esse vinho bateria facilmente em muito argentino ou chileno bem avaliado). Em resumo: se você for de Belo Horizonte ou viajar pra lá, eu sugiro fortemente que vá ao Glouton e entregue-se ao Paixão (ai, eu sei…)

E ainda bem que esse homem largou a Medicina, gente!

Glouton R. Bárbara Heliodora, 59, Lourdes, tel. (31) 3292-4237, www.glouton.com.br

 

 

 

Anúncios

O (re) descobrimento do Piauí

Paçoca com carne de sol, do São João: uma das melhores coisas que comi na vida

Paçoca com carne de sol, do São João: uma das melhores coisas que comi na vida

Se você acha que capote é apenas um casaco mais grosso, estamos juntos! Até dois meses atrás, era a única coisa que me vinha à mente quando ouvia esse substantivo. Bem, depois de ir ao Piauí descobri que capote é como se chama galinha d’Angola, uma das proteínas mais comuns da culinária daquele Estado. O que fui fazer lá? Ver de perto o Festival Gastronômico Maria Isabel, em Teresina. Foi o primeiro evento desse porte na região, realizado pelo Sebrae-PI e com curadoria da chef Ana Luiza Trajano, do restaurante Brasil a Gosto.

Cajuína, a bebida mais típica do Piauí: tome pura, com água gasosa ou, sei lá, vodca

Cajuína, a bebida mais típica do Piauí: tome pura, com água gasosa ou, sei lá, vodca

O festival começou no dia 23 de agosto, no parque Potycabana, onde montou-se uma super tenda com 20 estandes dos restaurantes e bares participantes (cada um criou uma receita com ingredientes regionais, à venda por R$ 15), palco com shows e estandes de artesanatos, comes e bebes. Raramente vi um ar-condicionado funcionar tão bem em um local desses. Mesmo com 40ºC bombando do lado de fora, cerca de 15 mil pessoas visitaram o evento nos três dias, sem passar calor! Aliás, foram consumidos quase 7 mil pratos  (e um real de cada prato vendido será repassado para a Fundação Padre Antônio Dante Civiero).

Hora da farinhada: discos quentinhos de beiju de goma de tapioca

Hora da farinhada: discos quentinhos de beiju de goma de tapioca

Além da Potycabana, o festival também teve concurso das escolas de gastronomia locais, circuito gastronômico dos restaurantes e oficinas no Sebrae com chefs ligados ao projeto. Sim, porque dois meses antes do festival, Ana Luiza reuniu quatro chefs para uma viagem de pesquisa pela capital e interior do Piauí – a pesquisa acabou também virando um festival a dez mãos no próprio Brasil a Gosto, com pratos criados por cada chef. O festival vai até novembro (confira os pratos no meu Instagram).

Oficinas no Sebrae com Ana Luiza Trajano, Fábio Vieira e Neka Mena Barreto

Oficinas no Sebrae com Ana Luiza Trajano, Fábio Vieira e Neka Mena Barreto

Aliás, são eles a banqueteira Neka Mena Barreto (da Neka Gastronomia), a chef Mônica Rangel (do restaurante Gosto por Gosto, em Visconde de Mauá, RJ), a chef carioca Flávia Quaresma e o chef Fábio Vieira (do restaurante Micaela, em SP). Em Teresina, todos apresentaram suas criações para o festival e alguma outra receita. Outro sucesso: 910 pessoas lotaram o auditório nos dois dias de oficina (ah, o ar condicionado do Sebrae também estava de parabéns; sério, muito importante esse detalhe no Piauí!).

Quibe do sertão (carne de sol e requeijão), do Favorito

Quibe do sertão (carne de sol e requeijão), do Favorito

E aproveitando a minha visita à capital piauiense, fiz um pequeno guia dos restaurantes e locais para visitar quando estiver em Teresina – e os pratos de que mais gostei. Aproveitem, tomem muita cajuína (pura ou misturada com água gasosa) e levem roupas beeeem leves, viu?

O famoso capote selvagem com arroz. O lado mais escuro é o pregadinho.

O famoso capote selvagem com arroz. O lado mais escuro é o pregadinho.

Favorito (R. Angélica, 1059, tel. (86) 3332-2020) – O Favorito está para Teresina como o Parraxaxá está para Recife: é o restaurante de comida típica mais famoso e amado pelos próprios moradores – as numerosas mesas nos almoços de domingo são bem concorridas. O menu é enorme e provei um pouco de tudo, mas do que mais gostei foram o arroz de capote selvagem, que vem com uma porção de “pregadinho” (aquela parte do arroz que “pega” no fundo da panela e absorve sabores incríveis). Custa R$ 119,90, mas vem numa porção pra quatro pessoas. Também o capote frito com farofa de farinha d’água e manteiga de garrafa (R$ 119,90) e um inusitado quibe do sertão: bolinho de macaxeira com carne de sol e requeijão (R$ 29,80, oito unidades).

 

Melhor carne de sol que já comi e um coalho com melaço pra nunca esquecer

Melhor carne de sol que já comi e um coalho com melaço pra nunca mais me esquecer

São João (R. João Cabral, 2274, tel. (86) 3213-1472) – O salão estilo “simplão” não entrega de cara, mas ali é servida uma das melhores carnes de sol que já comi nos meus vários anos de vida (nem pergunte porque não revelo esse número facilmente, ok?). Invista fortemente no filé de carne de sol (R$ 92, pra duas pessoas no mínimo!), que vem com baião de dois, vinagrete e uma macaxeira cozida quase cremosa de tão macia. Ah, ali também é servida a melhor paçoca de carne de sol com banana que comi no Piauí e uma imensa placa de queijo de coalho grelhado com melaço. Recomendo fortemente e volto assim que puser meus pés novamente no Piauí.

 

A bela Renata com suas delícias, como o bolo de sal

A bela Renata com suas delícias, como o bolo de sal (centro) e o de caroço (à esq.)

Bolo de Vó (R. Angélica, 1479, tel. (86) 9442-8385) – Uma pequena jóia (é pequenino mesmo) cheia de delícias. O café comandado pela simpaticíssima Renata serve bolos típicos, como o sensacional e macio bolo de caroço (às 16h sai uma fornada quentinha, #ficadica), o famoso bolo de sal (ou bolo de goma), um hit dos cafés da manhã, e outras delícias como as petinhas (biscoitinhos crocantes de tapioca) e bolos doces variados. Não peguei o preço de nada, de tão atarantado. Mas certamente vale a pena o investimento.

 

Camarão na chapa e patinhas de caranguejo, do Elias

Camarão na chapa e patinhas de caranguejo, do lendário seu Elias

Camarão do Elias (R. Pedro Almeida, 457, tel. (86) 3232-5025) – Um dos melhores lugares para fechar a noite em Teresina. Se der sorte, você ainda topa com o lendário “seu Elias”, fundador desse bar-restaurante já clássico na cidade – existe desde os anos 1980! A especialidade é… camarão (duh!) E eu enchi o bucho com um dos itens mais pedidos de lá: camarão na chapa com estragão e alcaparra (R$ 60). Mas não deixe de provar as patinhas de caranguejo maranhense (R$ 30), super cremosas e com sabor marcante. E peça uma caipirinha de caju com limão e cachaça Lira – se você der sorte de ser época de caju (em agosto quase não tinha a fruta). Senão, vá no clássico limão, que acompanha bem o camarão.

 

Carne de sol cabocla e o ótimo feijão tropeiro do chef

Carne de sol cabocla e o ótimo feijão tropeiro do chef

Grelhatta (Av. Lindolfo Monteiro, 1239, tel. (86) 3305-6929) – O jeitão de churrascaria “típica” desanima um pouco: salão com luz muito clara, TV bombando na parede, salão sem muita personalidade. Mas… supere isso e insista, porque a comida é ótima. E se for ali à noite, esqueça um pouco o calor e sente nas mesas do lado de fora, que têm seu charme e mudam a experiência. O extenso menu tem alguns destaques, como o feijão tropeiro do chef (R$ 23,90), com os grão quase al dente e um tempero impecável. Outra pedida certa é a carne de sol cabocla (R$ 75,90, pra duas ou três pessoas): filé com molho de tomate, purê de abóbora e uma inesquecível farofa de ovos. Ah, sim, ali também tem um ótimo arroz Maria Isabel (prato tão típico do Piauí que até deu nome ao festival).

 

Chocolate e bacuri, uma mistura que deu certíssimo

Chocolate e bacuri, uma mistura que deu certíssimo

La Pâtiserie Favorito (Av. N. Sra. De Fátima, 2575, tel. (86) 3232-4414) – Mais uma das seis casas (!) do grupo Favorito, esse misto de café e doceria é um encanto. Além de sanduíches, comidinhas, lanches e combos de café da manhã, as estrelas da casa são os doces elaborados no estilo “quando a França encontra o Piauí. Como a arrojada combinação de chocolate e bacuri (R$ 10,10) na foto. Também provei um prosaico mil-folhas, bastante honesto, pelo mesmo preço acima.

 

Os bolos fritos da Socorro (vulgo Help) e a incansável dona Francisca

Os bolos fritos da Socorro (vulgo Help) e a incansável dona Francisca

Quer mais algumas dicas rápidas para sua estada em Teresina? Visite o Mercado do Mafuá, simples e bagunçado, mas onde você compra um ótimo azeite de babaçu da dona Francisca (quase 90 anos de idade e está lá, firme e forte todos os dias) e come o famoso bolo frito com café da Socorro (a barraca diz “da Help” porque Socorro era muito grande e não cabia).

 

Meu café com condições. Desculpa aí...

Meu café com condições. Desculpa aí…

Dê uma passada no ateliê da artista plástica Kalina Rameiro (R. José de Lima, 510, tel. (86) 3233-1278). Tem desde peças de decoração (me apaixonei pelas esculturas de corações de madeira com desenho rendado), até bolsas e acessórios, como esse colar feito com espeto de babaçu e pedras regionais. Ah, se der sorte você ainda toma um delicioso café da tarde, com bolo de milho. Me emocionei com o jogo de xícaras douradas, que apelidei de “café com condições”. Sim, sou um tonto.

kalina atelie

O ateliê de Kalina e seu surpreendente trabalho com materiais regionais

Se quiser ver mais dessa viagem, postei um montão de fotos no meu Instagram, a partir daqui. Boa viagem!

 

Comendo bem em Paris sem destruir sua carteira (parte 2)

Já pensou num piquenique com essa vista?

Já pensou num piquenique com essa vista?

Continuando o post sobre minhas andanças gulosas por Paris, vai uma dica de economia: quando puder, guarde seus valiosos euros em algumas refeições, principalmente no almoço, para investir num jantar mais bacana (como os que falarei abaixo). Dá pra comer bem e com charme. Passe numa boulangerie ou num mercado e pegue um baguette com queijo e presunto (são grandes e custam cerca de 6 euros), uma garrafinha de vinho (nos supermercados há rótulos razoáveis por 3 euros a meia garrafa) e, se o tempo ajudar, almoce num dos bancos do Jardin des Tuileries (na foto) ou faça um mini piquenique no Jardin des Luxembourg. Só não caia na besteria de comprar os sanduíches feitos nos quiosques dentro do parque: são caros, enjoativos e preparados com muita má vontade. Fuja!

galeteCaso você puder elevar um pouco o orçamento, aposte numa gallete da Crêperie Paris Montorgueil (37 rue Mauconseil). Em tempo: galette é um crepe salgado feito de trigo sarraceno e servido como prato principal. Ali provei o La Parisienne, uma boa combinação de queijo emmental, presunto, cogumelos, ovo e tomates, por 9 euros. Pelo mesmo preço, havia o La Végétarienne, com cogumelos cremosos, batatas, tomates e salada verde. Atenção para o menu executivo: por 12,50 euros, você almoça a galette salgada, um crepe doce e uma bebida. Voilá!

 

Tartare de pato com maçã: uma das surpresas do Pirouette

Tartare de pato: uma das surpresas do Pirouette

Pirouette (5, rue Mondétour) – Dica certeira do chef Raphael Despirite (Marcel), esse restaurante foi uma das melhores surpresas de toda a viagem. Fica numa das ruazinhas de Les Halles e é comandado pelo chef Tommy Gousset, discípulo de Daniel Boulud e Yannick Alléno, que pratica uma cozinha inventiva, fresca, saborosa e, principalmente, acessível: o almoço sai por 18 euros (entrada + prato principal). As sobremesas giram em torno de 12 euros e a oferta de vinhos tem boas opções.

 

pirouette2Porém… sem reserva, nem pensar. Cheguei lá quase 14 horas achando que ia rolar e acabei reservando ao vivo mesmo, pro dia seguinte. Meu menu: tartare de pato, com vinagrete de framboesa, maçã verde e rabanete (adorei, mas me arrependi de não ter provado o ovo perfeito com champignons) e no principal suculentos cubos de alcatra com cuscuz de quinoa, passas brancas e pepino.

 

pirouette3A sobremesa-estrela do lugar é o Riz au lait, um tipo de arroz doce, com manteiga de caramelo e sal, amêndoas e avelãs confeitadas (10 euros). Adorei tudo: a comida, o serviço preciso, o ambiente arejado, a localização charmosa. Pena que almocei ali só no meu último dia em Paris, senão teria voltado ao Pirouette pelo menos para jantar.

 

Os maravilhosos macarons gordinhos da Pierre Hermé

Os maravilhosos macarons gordinhos da Pierre Hermé

Macaron – não dá pra ir a Paris e não provar essa guloseima típica da França. O doce beira a perfeição. A massa, uma espécie de merengue feita com claras, açúcar e amêndoas, é crocante, mas ao mesmo tempo macia e não esfarela na primeira mordida. O recheio, geralmente um ganache à base de chocolate e/ou frutas, confere untuosidade e sabor à combinação. A marca de macaron mais famoso é a Ladurée, que tem várias lojas espalhadas por Paris, inclusive um quiosque no aeroporto. Cada mini macaron custa 1,90 euros e tem muitos sabores (adorei o de flor de laranjeira). Mas o melhor macaron, pra mim, é o Pierre Hermé. São mais gordinhos, mais recheados, mais macios e mais gostosos. E mais caros: R$ 2,10 cada. Mas vale muito a pena. E os sabores são demais: rosas; tangerina e azeite, hocolate ao leite, gengibre confit, banana e maracujá; trufa branca com avelã…

 

robert carneRobert et Louise (64 Rue Vieille du Temple) – Dica quentíssima do chef Erick Jacquin (La Cocotte), esse restaurante de assados é uma pequena jóia no Marais. Pequena mesmo: estávamos em três e dividimos uma mesa grande com outros clientes, bem pertinho do fogo à lenha. Sem erro: o local tem um clima tão despojado e simpático que até inspira essa proximidade. A especialidade da casa são as carnes, que saem da grelha no ponto perfeito, mas também provei o confit de pato e estava uma delícia. A estrela da casa é a costela bovina para dois ou três (pedimos pra dois, 44 euros, e sobrou), acompanhada de batatas e salada.

robert campagneA costela vem perfeitamente selada, crocante ao redor, com aquele leve gosto de chamuscado. A carne é quase cremosa de tão macia, num inspirador degradé de rosa a vermelho vivo, suculenta e sem aquela piscina de sangue a cada corte. Não deixe de pedir o tremendo patê de campagne na entrada.

robet bruleecreme brûlée é uma das sobremesas que recomendo (a torta de limão também estava muito boa). A conta, com vinho e tudo, saiu 50 euros cada. Valeu cada centavo. Ah, nem pense em ir sem reserva.

 

mil folhasChamps Elysées – Visitou o Arco do Triunfo? Tirou bastante foto? Agora desça uma das avenida mais bonitas de Paris em direção à Place de la Concorde (onde está um obelisco egípcio). O caminho é lindo, todo arborizado. Ali também ficam lojas de grife como Lacoste e Louis Vuitton, além de galerias, cinemas etc. Vale uma parada para um almoço rápido na Maison Pradier (84 Avenue de Champs Elysées). Fica na galeria em que está a H&M, é um quisque com bancos ao redor, lotado de doces lindos. Tem também formule midi (menu de almoço) por menos de 15 euros, com prato ou sanduíche, bebida e doce. Fui de mil-folhas e adorei.

 

cafe campanaMuseus – Paris tem muitos (e ótimos) museus. Mas andar por todos eles cansa. Pra não ficar mal humorado nem fazer tudo correndo e deixar de ver obras legais, dê um tempo no meio do passeio pra sentar, tomar uma café, relaxar e comer alguma coisa. Todos museus tem cafés e até restaurantes. O melhor é o Café Campana, no museu d’Orsay (aliás, um dos museus mais legais de Paris). O espaço, localizado no último andar, junto ao terraço, foi projetado pelos designers brasileiros irmãos Campana, que se inspiraram em 20 Mil Léguas Submarinas pra criar o ambiente.

baba irmao campanaAlém de lindo e arrojado, o café tem um menu acessível (pratos ao redor de 15 euros) e um excelente baba ao rum (7,20 euros), servido em verrines (copos). Ah, e o café espresso é bom e custa 2,70 euros – quase metade do café do Centro Pompidou, onde fui esfolado em 5 euros por um cafezinho. O restaurante no topo deo prédio é lindo e tem uma vista privilegiada, mas é caro demais. No caso do Louvre, não se abale: vá de manhã, ande o máximo que puder, saia pra almoçar (ali mesmo tem uma praça de alimentação, se não quiser ir longe) e volte com o mesmo ingresso pra ver mais obras: acredite, passei quase 5 horas lá e ainda faltou muita coisa pra ver.

 

 

 

Comendo bem em Paris sem destruir sua carteira (parte 1)

parisPassei uma parte de minhas férias em Paris, como vocês que me seguem no Instagram já sabem. Fazia 20 anos que não eu não visitava a capital francesa e quase tudo teve um sabor de novidade. Sim, Paris é uma das cidades mais lindas e encantadoras do mundo – e também uma cidade cara, ainda mais em tempos de euro nas alturas. Um café da manhã simples pode chegar a 25 reais e um jantar razoável passa dos 100 reais. Mas a cidade é coalhada de bistrôs e brasseries, onde invariavelmente come-se muito bem e sem destroçar o bolso. Assim foi minha viagem: comida boa, mas acessível (afinal ainda tinha Nova York pela frente, mas disso falamos depois), mas sem nenhuma estrela no caminho. Seguem aqui minhas andanças e dicas de onde comer em Paris (e por ser longo vamos dividir em dois posts, ok?)

tartare

Meu 1º almoço em paris: steak tartare do Bar’Bouille

Um mar de bistrôs – Praticamente qualquer bistrô do bairro do Marais é bom. Desça na estação Republique e vá andando em direção à Rue de Bretagne. Ali tem vários muito bons. A maioria tem formule midi, ou seja, executivo de almoço, ao redor de 13 euros (entrada + prato principal ou principal + sobremesa). Se quiser, complemente com uma taça de vinho (ao redor de 5 euros), que é quase a mesma coisa que uma coca-cola ou uma cerveja.

salada salmaoO Le Bar’Bouille (13 Rue de Bretagne) tem um ótimo steak tartare, com salada com molho de mostarda e batatas salteadas. Outra boa pedida é a salada com salmão (na foto à direita), que é enorme e ainda vem com torradas. Ali é vantagem pedir ½ garrafa de vinho, que sai 11 euros e rende 2 taças pra cada um. Sobremesa não vale a pena, vá comer uma éclair ou uma tortinha de frutas em qualquer boulangerie ou pastisserie (e que custa de 2,5 a 5 euros). Ah, na maior parte dos bistrôs, no happy hour o preço das cervejas cai (3,50 euros, por exemplo) e as mesinhas apertadas ficam lotadas. Mas só e você suportar bem a fumaça de cigarro na sua cara (sim, os franceses fumam MUITO,  o tempo todo).

 

Perfeição: foie gras mi-cuit com creme de ameixa

Perfeição: foie gras mi-cuit com creme de ameixa

Le Comptoir du Relais (9 Carrefour de l’Odéon) – nove entre dez pessoas vão te indicar esse pequeno restaurante, e elas estão todas certas. O pequeno restaurante com salão em art deco vive entupido de gente em busca da ótima cozinha do chef Yves Camdeborde, um dos papas da bistronomy. Se quiser jantar ali, reserve com no mínimo 3 meses de antecedência. Sobra o almoço, do meio-dia às 15h, e é só na sorte: tem de chegar e esperar mesa.

Pé de porco desossado e empanado.

Pé de porco desossado e empanado.

Super fiz isso e acabei sentando 15 minutos depois, numa das apertadas mesinhas da calçada, debaixo de um sol inclemente. Quando chegaram os pratos, nem lembrei mais do desconforto. Comida de brasserie saborosa, sem frescuras nem presepadas, em porções generosas e preço bem razoável (pelo menos no almoço). Meu menu: foie gras mi-cuit (semi-cozido), extremamente cremoso, com creme de ameixas, salada e pão tostado. No principal, ousei pedir pé de porco desossado, cortado em cubos e empanado, com purê aveludado de batatas. Parece uma porrada, mas era muito saboroso e surpreendentemente não me pesou no resto do dia

 

Feio, mas delicioso: lulas recheadas com legumes à provençal

Feio, mas delicioso: lulas recheadas com legumes à provençal

Meu acompanhante pediu lulas recheadas com legumes à provençal e molho de sua tinta. Dividimos a sobremesa e me arrependi: foi o melhor baba au rhum da minha vida, com o bolo gordinho e esponjoso, encharcado de rum adocicado e acompanhado de chantilly levíssimo. Quase pedi outro…

Melhor baba ao rum da vida!

Melhor baba ao rum da vida!

Com vinho e tudo (e eles têm ótimas opções em taça ou meia garrafa, no almoço), a conta do Comptoir saiu mais ou menos 50 euros por pessoa. Vá, vá e vá.

 

 geleiasLa chambre aux confitures  (9 Rue des Martyrs) – uma lojinha especializada em geleias que é de morrer. Você pode provar com uma colherinha qualquer sabor – e tem uns trocentos. Desde o “basiquinho” morango com menta (maravilhoso, alias) até mais os mais elaborados, como manga, coco e chocolate branco. Tem dois tamanhos, pequena e a normal (7,50 euros). Não compre da pequena – a diferença de preço não compensa e a geleia acaba rápido demais. Ah, bem do ladinho mesmo, fica o Palais de Thés (64, rue Vieille du Temple), uma rede de lojas especializada em chás, infusões, utensílios e geleias (de chá!).

 

crepe droguerieLa Droguerie du Marais (56 Rue des Rosiers) – fica numa travessinha das ruas principais do Marais, mas todo mundo conhece. Tem umas mesinhas (que não vi ninguém usando) e um balcão que dá pra rua, com o menu numa placa bem grande do lado de fora. Ali está a lista de crepes salgados (de 6 a 8 euros) e doces (de 2.50 a 4,5 euros) e eles são maravilhosos. Você pede, paga e sai comendo na mão mesmo – foi meu jantar numa das noites. Aos sábados, a espera pode chegar a meia hora, pois é só um rapaz preparando os crepes de todo mundo (e a habilidade dele com isso já vale uma boa espiada) Eu comi o crepe de la reigne, com (muito!) queijo emmental derretido, presunto, cogumelos e azeitonas. Também tem de atum com tomates e azeitonas, ou frango. E pra quem gosta de crepe doce, o de lá é considerado o melhor crepe de nutella da cidade – mas o de manteiga e açúcar é tão bom quanto

 

pizza pink flamingoPink Flamingo (105 Rue Vieille du Temple) – aqui comi pizza, sim!, pizza! Lugar pequeno, muito simpático e frequentado pela moçada descoladinha, que se acotovela nas apertadas mesinhas na rua. As pizzas são individuais, mas grandinhas, massa fina feita com fermentação orgânica. A minha foi a Basquiat (13 euros), com cobertura de gorzonzola, figo e presunto cru de Auvergne. Outro sabor delicioso é o Le Bjork (13,50 euros), com salmão defumado e crème fraîche. Não provei sobremesas, mas servem cheesecake e torta de pecan. Ah, dica: a outra unidade (67 rue Bichat 75010, perto do Canal de Saint Martin) tem um delivery sui generis: você pede a pizza, ganha um balão cor-de-rosa e vai pro canal. Ele te localizam ali e fazem a entrega de bicicleta. Ótima pedida para um almoço charmoso (uma pizza + bebida sai por menos de 10 euros) às margens do Sena.

 

dejeuner au grand turenneCafé da manhã – essa é moleza: quase todos bistrôs têm seu formule petit déjeuners, ou seja, menu de café da manhã: uma bebida quente (como café com leite) + suco de laranja espremido na hora + um coissant (ou meia baguette com manteiga e geleia). O preço vai de 5,50 a 10 euros. Durante vários dias eu tomei café da manhã no Au Grand Turenne (27, Boulevard du Temple), e pagava 8 euros. Com ovos mexidos e bacon (como na foto ao lado), saia 10 euros – e se quisesse salmão, 12 euros. O garçom é quase um estereótipo, meio ranzinza e sempre com pressa, mas o bistrô ficava do outro lado da rua do hotel (onde o bufé de café da manhã era ótimo, mas custava 16 euros e eu não estava podendo), então era lá mesmo!

 

croissantOu você pode simplesmente comprar um croissant e um café numa boulangerie e sair comendo alegremente pela cidade. Todos croissants que comi em Paris eram super crocantes e não havia necessidade de colocar manteiga – a massa já tem bastante.

Cronut, mistura de croissant e donut, conquista Nova York

Pense numa massa com camadas crocantee e recheio cremoso... Ai, que loucura

Pense numa massa com camadas crocantee e recheio cremoso… Ai, que loucura!

Já ouviu falar em cronut? Trata-se da nova guloseima-sensação de Manhattan. O doce, criado pelo pâtissier Dominique Ansel, é uma híbrido de croissant e donut. Explico: o crunut, composto de uma massa de croissant com finas camadas internas, é frito em imersão. O recheio,  injetado delicadamente, é um creme bem leve de baunilha do Taiti, que se espalha por entre as lâminas crocantes da massa. A guloseima é finalizada com um glacê de rosas e pétalas cristalizadas. Os cronuts são vendidos na loja de Dominique, no Soho, e o povo tem feito fila logo cedo para garantir o seu – tem dia em que o doce acaba às 9h30 da manhã. Segundo o chef, o doce deve ser consumido no mesmo dia e o jeito ideal de comer é cortá-lo ao meio com uma faca serrilhada para não esmagar e esfarelar as camadas crocantes. A partir de junho, ele terá a nova cobertura de limão e, em julho, doce de leite. Achei diabólico. E não consigo mais viver sem. Quem for pra Nova York e experimentar a novidade, por favor, me conte tudo com detalhes e ganhe minha eterna inveja. Aliás, ninguém vai lançar essa maravilha por aqui, não?

O chef Dominque Ansel, a "mente diabólica" por trás do cronut

Dominque Ansel: o criador do cronut já foi chef pâtissier no estrelado restaurante Daniel, do chef Daniel Boulud

Dominique Ansel Bakery – 189 Spring Street, Soho, Nova York, tel: (212) 219-2773, www.dominqueansel.com

Dia de muito camarão na praia da Baleia

Começamos bem o dia na praia: camarões bem gordinhos, empanados com coco, servidos com calda de mel e pimenta

Poucas coisas na vida me dão mais prazer do que viajar, tomar sol, comer bem e me divertir com amigos. No penúltimo fim de semana, fiz tudo isso junto e ainda tive a sorte de pegar dois dias de sol antes que o outono virasse esse lusco-fusco frio e chuvoso que chegou à cidade (nota mental: plantar pimenteira no jardim pra afastar olho gordo). Enfim, a viagem foi pra São Sebastião, mais especificamente na praia da Baleia, com meu amigo (e super blogueiro) Marcelo Katsuki. Ficamos hospedados na Azul Maria, pousada com 17 apartamentos e 1.200 m2, que funciona ali há três anos. Adivinha se, entre idas e vindas da praia, não acabamos almoçando (fartamente) no restaurante da própria pousada? Continuar lendo